FLÁVIA MANTOVANI
da Folha de S.Paulo
Cortar o cordão umbilical assim que o bebê nasce é
a conduta mais adotada na maioria das maternidades do país. Mas
novos estudos sugerem que esperar um pouco pode aumentar os estoques
de ferro e prevenir anemia nos recém-nascidos.
Veja o especial Mães e Filhos
Pesquisa publicada nos "Cadernos de Saúde Pública",
da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), comprovou o benefício.
Foram acompanhados 224 partos: em 109 deles, foi feito o clampeamento
(corte) imediato; em 115, esperou-se um minuto. Três meses após
o parto, os bebês submetidos ao corte tardio tiveram um nível
maior de ferritina (indicador da quantidade de ferro).
Eduardo Knapp/Folha Imagem
Bebê no berçário do Hospital e Maternidade Interlagos,
que permite que os próprios médicos decidam quando cortar
o cordão umbilical
Isso ocorre porque, quando o cordão não
é cortado imediatamente, o bebê recebe mais sangue da mãe.
"Trata-se de uma das estratégias da Organização
Mundial da Saúde para prevenir a anemia, um problema grande no
primeiro ano de vida", diz a pediatra Jucille Meneses, vice-presidente
do departamento científico de neonatologia da SBP (Sociedade
Brasileira de Pediatria).
Em 2007, uma revisão de estudos publicada no "Jama"
(periódico da associação médica americana)
concluiu que o corte tardio é melhor para o bebê.
Segundo a autora do estudo brasileiro, a pediatra Sônia Venâncio,
do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde
de São Paulo, trata-se do primeiro trabalho nacional a fazer
essa comparação. "Havia referências internacionais
e quis ver se achávamos os mesmos resultados aqui", diz
ela, que agora consolida os dados dos bebês aos seis meses.
Venâncio optou pelo tempo de um minuto para conseguir a adesão
da equipe da maternidade. "Mesmo com essa intervenção
menos radical houve diferença no estoque de ferro."
Polêmica
A questão, porém, não é consensual. Especialistas
afirmam que o fato de o bebê receber mais sangue aumenta o risco
de ele ter policitemia (excesso de glóbulos vermelhos) e icterícia
(coloração amarela gerada por excesso de bilirrubina).
Para Eduardo Cordioli, obstetra e coordenador médico da maternidade
do hospital Albert Einstein, o corte precoce é mais seguro. "Quando
o bebê recebe muito sangue, não dá conta. Vários
trabalhos mostram que ele precisa fazer mais fototerapia [para icterícia].
Acho perigoso abrir mão da segurança."
Ele diz que o tema é controverso. "A gente deixa alguns
segundos, limpa, corta com calma. Acho saudável esperar um pouco,
mas com bom senso."
No estudo de Venâncio, não houve diferença significativa
no índice de problemas como icterícia entre os dois grupos.
Para a pediatra Ana Lúcia Goulart, chefe da disciplina de pediatria
neonatal da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a intervenção
é pouco efetiva. "O aporte maior de ferro é feito
na gestação. A espera para clampear aumenta muito pouco
a reserva do mineral."
Ela diz que a maior diferença seria para crianças prematuras,
que, como precisam de cuidados imediatos, não deveriam receber
o corte precoce.
Meneses, da SBP, discorda e diz que, segundo estudos, o corte tardio
reduz a necessidade de transfusões sanguíneas e o risco
de hemorragias intracranianas em prematuros.
Para Meneses, a regra deveria ser o corte tardio, com algumas ressalvas.
A SBP ainda não tem orientação sobre o tema.